
Ontem se encerrou em João Pessoa o 5º Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, o CinePort. Os realizadores resolveram presentear com mais um dia de evento o estado que tão bem o recebeu. Na verdade, um mea culpa pela desastrosa organização dessa edição.
Quem lá esteve deve ter se lembrado de “A casa”, de Vinicius de Moraes. Era um festival muito engraçado, tinha teto, mas não tinha nada. Programação, curadoria, conforto e decente exibição não tinham não. Mas era feito com muitos zero$ do estado dos bobos, sem nenhum esmero.
Pois é, a caixa de pandora tinha mais males do que o esperado. Além dos filmes em língua estrangeira sem legenda, desconforto das cadeiras, e Blockbusters “passados” como destaques, problemas já de outras edições, este ano tivemos que engolir mais sapos. Nesse 5º Cineport contamos com uma absoluta falta de critério na escolha das produções a serem exibidas, curtas, médias e longas-metragens na mesma sessão, produções cinematográfica, televisiva e institucional disputando o mesmo espaço; com uma péssima qualidade de exibição, com vários filmes tendo sua imagem achatada; e com uma programação atrasada e inexistente, e por aí vai. Mas, como escutei muita gente falar, isso é Paraíba, né?
Não, senhor! Que esteve em festivais como o de Areia pode dizer que nosso estado tem condições e vem realizando com sucesso eventos culturais de grande porte. Essa esculhambação é a Fundação Ormeo Junqueira Botelho, entidade promotora do evento, e é também o poder público que afiança um festival itinerário sem exigir garantias de que o dinheiro ali investido vai ser bem utilizado.
E como fica o paraibano que além de pagar seus impostos, sendo, portanto, também fiador do evento, ainda paga dois conto pra entrar num festival que parece mais preocupado em encher a burra de dinheiro? Calados, irão responder alguns, conscientes do nosso “complexo de patinho feio”, enraizado num conformismo político pra lá de arcaico. Entretanto, já existem vozes que lutam contra esse silêncio cúmplice. O movimento “A Paraíba precisa ser assistida”, que exige do governo maior visibilidade e investimento em produções cinematográficas locais, esteve no evento fazendo suas reivindicações, e mostrou que tem paraibano que não curte ser feito de bobo. Botou o seu bloco na rua e até a Rede Globo local teve que aturar.
Mas enfim, festival acabou, andorinha voou, sobrevoou João Pessoa, revelou-se pombinha e ploft!, foi-se embora. Tudo bem, deixe está! Ela ainda volta! Da próxima vez quero é ver ela aprontar uma dessas, se a gente abandonar os semblantes abobalhados e nos armarmos até os dentes com pedras e baleadeiras.
Ícaro Allende



